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Nota introdutória

A criança /jovem com multideficiência pode apresentar no seu perfil um conjunto de limitações, quer sejam nos domínios motor, cognitivo ou sensorial, que combinadas entre si interferem e condicionam o seu desenvolvimento, assim como limitam o seu acesso às aprendizagens e o seu nível de participação nas actividades que lhe possam ser proporcionadas.

A etologia da multideficiência pode ser congénita ou adquirida, desta forma, as crianças com multideficiência requerem necessidades excepcionais e individuais, que possibilitem uma aprendizagem significativa, que atenda às suas limitações segundo o seu grau de funcionalidade.

Conceito de avaliação

A Avaliação em multideficiência é compreendida como um processo de recolha de informação que possibilita aferir a qualidade de funcionamento da criança ou do jovem nas actividades e ambientes onde participa ou onde eventualmente poderá vir a participar no futuro.

Como realizar a avaliação

Como é referido por Amaral et al., (2004, pp. 46-47) a avaliação permite recolher informações acerca de preferências, capacidades e necessidades, tipo de ajudas necessárias para uma participação mais activa e, o modo como a criança funciona nas actividades naturais baseadas em rotinas. Esta informação deverá ser recolhida e analisada em equipa multidisciplinar. Para recolher essa informação é necessário:

  • Definir os procedimentos a adoptar tendo em conta a criança/jovem;
  • Adaptar os procedimentos à capacidade de resposta de cada um;
  • Facultar situações onde possa manifestar os comportamentos;
  • Observar se a criança/jovem manifesta os mesmos comportamentos em diferentes contextos.

Perspectivas de avaliação


A perspectiva desenvolvimental - baseia-se em testes standardizados que não têm em conta os ambientes onde a criança / jovem com multideficiência está inserida (família, escola e a comunidade), mas sim o seu desenvolvimento nas diversas áreas de desenvolvimento (motor, linguagem, cognitivo e socialização). Estas crianças/jovens manifestam acentuadas limitações que podem limitar as suas respostas, como também limitar a capacidade de se relacionar com os materiais de avaliação que estes testes apresentam.

Estes testes são baseados na pergunta-resposta e as situações/actividades apresentadas não são interactivas, o que pode levar as crianças/jovens com multideficiência sentirem-se ansiosas, aquando as sessões de avaliação (Nelson e Van Dijk, 1998). Assim, necessitamos de ajustar e até criar instrumentos de avaliação adequados à especificidade destas crianças/jovens.

A abordagem desenvolvimental não valoriza os ambientes naturais e normais da criança/jovem com multideficiência, como seja o ambiente família, o ambiente escola e o ambiente comunidade. Esta abordagem não nos permite caracterizar as capacidades de aprendizagem, as competências funcionais e as necessidades da criança/jovem com mutideficiência, pelo que não nos permite recolher informação significativa para podermos intervir.


A perspectiva ecológica - consiste numa avaliação holística, que tem por base os diversos ambientes que envolve a criança / jovem com multideficiência. Segundo Van Dijk (1998), estas crianças/jovens são frequentemente descritas como “intestáveis” e que os testes normalizados existentes podem ser insuficientes para avaliar todas as competências destas crianças/jovens. Estes testes baseiam-se na "norma e não têm em conta os padrões de desenvolvimento que as crianças/jovens com multideficiência apresentam" (p.4).

Os seus comportamentos serão observados nos contextos naturais onde ocorrem, quando está envolvida nas actividades quotidianas e nas suas rotinas.
Devido às características das crianças/jovens com multideficiência é relevante avaliar as suas capacidades, necessidades e competências, assim como os ambientes onde funciona. Esta avaliação é centrada nos ambientes onde estas crianças/jovens se encontram inseridas. Consideramos ser esta perspectiva mais assertiva para a avaliar as crianças / jovens com multideficiência.


«Modelos» de Avaliação

Podemos realizar a avaliação da criança/jovem com multideficiência centrando-nos nos seguintes «modelos»:
  1. avaliação centrada na família:
  2. avaliação centrada na criança;
  3. avaliação centrada nas actividades.

Embora o objecto de avaliação seja diferente, estes três «modelos» de avaliação estão interligados e podem enquadrar-se na perspectiva ecológica da avaliação, acima referida. Seguidamente passamos a descrevê-los de uma forma breve.
  1. «Modelo» de Avaliação Centrada na Família
    A família é participante na vida da criança e interage com ela em contextos naturais e por este motivo faz todo o sentido, numa perspectiva ecológica de avaliação, chamar a família para participar no processo da avaliação As principais finalidades quando se realiza a avaliação são: conhecer a família da criança e as suas necessidades e pontos fortes. A informação obtida é depois integrada no programa de intervenção.
    Os objectivos deste modelo de avaliação poderão ser: saber o que necessita a família, que expectativa tem, o que quer para a criança no futuro, como vê o seu filho, que dificuldades sentem, conhecer as suas limitações e ver quais as possibilidades de participação.
  2. «Modelo» de Avaliação Centrada na Criança
    As principais finalidades deste modelo de avaliação é saber o que a criança sabe e não sabe fazer, como aprende, como se relaciona com os outros, como comunica, quais as estratégias que utiliza para receber e integrar a informação, quais as adaptações necessárias para que possa participar mais activamente nas actividades, do que gosta ou não gosta, quais as suas capacidades e dificuldades e, por ultimo, conhecer o funcionamento da criança nas várias áreas de funcionamento.
    Segundo Nelson e Van Dijk (1998) é indispensável observar o estado biocomportamental da criança, os canais de aprendizagem preferidos para receber informação e o modo como responde aos estímulos do meio ambiente e quais os estímulos preferidos, as capacidades de memorização, nomeadamente a forma como antecipa as rotinas e as aprende, a forma como interage socialmente, comunica e resolve os problemas (Amaral, et al. 2004, pp. 61-64).
    Neste tipo de avaliação os interesses da criança devem liderar o processo. O processo de avaliação deve ser constantemente adaptado ao nível de comunicação e ao estado emocional da criança. Quem avalia deve estar atento à forma como a criança reage às diversas sensações e como é que a criança usa os seus sentidos para adquirir a informação, devem der privilegiados os canais preferidos pela criança para a estimular e levar à aprendizagem. Deve ser estabelecida uma rotina agradável baseada na interacção/comunicação na qual exista a possibilidade de pegar a vez e estabelece turnos de comunicação. É importante imitar a criança para tentar interagir comunicativamente, para chamar a sua atenção.
    Na avaliação centrada na criança o principal fundamento é o estabelecimento de uma relação afectiva segura entre quem avalia e a criança. “ É necessário que o adulto se ajuste às emoções da criança/ jovem e ao nível de funcionamento cognitivo e comunicativo que apresenta” (Amaral, et al. 2004, p.59).
  3. «Modelo» de Avaliação Centrada nas Actividades
    A avaliação centrada em actividades implica necessariamente uma avaliação à família e à criança.
    Seguindo este «modelo» é fundamental avaliar as actividades que fazem parte das vivências e rotinas diárias da criança (actividades naturais). É uma avaliação que se centra nos contextos e nas interacções significativas para a criança.
    Pretende-se avaliar o que faz a criança, como compreende e executa as actividades e o que faz o adulto (que informações dá á criança e que estratégias utiliza. É importante avaliar a díade aluno/docente, ver como interagem, a atenção mútua e se existem troca de turnos e como são interpretadas as pistas de comunicação. Assim, é importante recolher dados relativos ao tipo de actividade em que a criança participa diária/semanalmente considerando os ambientes em que as mesmas se desenvolvem e ainda se são necessárias algumas adaptações que permitam maior funcionamento da criança. Este «modelo» de avaliação permite planear uma intervenção funcional e baseada nas necessidades da criança e da sua família. Na avaliação centrada em actividades “é importante dispor de instrumentos de avaliação que focalizem a criança/jovem com multideficiência numa perspectiva interactiva, holística e compreensiva” (Amaral, et al., 2004, p. 64).

Recolha dos dados

Os dados podem ser recolhidos através de: i) observações directas da criança em actividades naturais e em diversos contextos, ii) entrevistas realizadas às famílias e aos profissionais que interagem com ela; iii) análise de documentos e iv) observação e análise dos ambientes frequentados. Para além destas estratégias podemos referenciar alguns instrumentos que podem ajudar a orientar a avaliação destas crianças e que se encontram em Amaral et al. (2004).

Um desses instrumentos denomina-se «Observação centrada em actividades naturais» e “tem como objectivo a recolha de informação específica sobre a forma como a criança funciona nas actividades que realiza diariamente e as estratégias utilizadas pelo adulto para ajudara realizar a actividade.” (ibid, p. 66). Neste instrumento de observação e avaliação são estão referenciados os seguintes aspectos:


  • Designação da actividade observada
  • Identificação dos locais onde se realizou
  • Identificação dos intervenientes (criança e adulto)
  • Descrição da rotina da actividade (organização, principio, meio e fim, passos incluídos na rotina)
  • Nível de participação de criança na actividade (o que faz, como faz)
  • Adaptações existentes (adaptações para que possa participar de forma mais activa ex: posicionamento, materiais, espaço físico)
  • Estratégias utilizadas pelo adulto de forma a facilitar a execução
  • Descrição dos comportamentos comunicativos e sua frequência (iniciativas, formas, funções, conteúdos, oportunidades).



Resultados de um pequeno estudo no âmbito da avaliação em multideficiência

Foi elaborado um pequeno estudo por um grupo de mestrandos que visava responder às seguintes questões:
- Como é que os profissionais avaliam os alunos com Multideficiência?
- Existe algum modelo de avaliação subjacente?

Para a realização do mesmo foram entrevistadas quatro pessoas (dois professores de Educação Especial e duas Educadoras de Infância), todas a trabalhar com crianças com multideficiência.
Do estudo foram retiradas as seguintes conclusões:


  • Encontrámos, subjacente à avaliação, uma abordagem essencialmente desenvolvimental e um modelo de avaliação centrado na criança.
  • Os docentes avaliam apenas em contexto escola procurando avaliar não apenas as suas capacidades e as necessidades (numa perspectiva desenvolvimental), mas também o funcionamento da criança nas actividades, mas não as actividades.
  • Não fazem uma avaliação dos contextos, como seja o modo como estes se encontram organizados, como é que as actividades são desenvolvidas, etc.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

No caso de crianças/jovens com multideficiência o sucesso da sua avaliação passa pela capacidade de identificar as necessidades da criança e da sua família e também de uma mudança de paradigma que pressupõe a utilização de um modelo de avaliação holístico, de base ecológica, que seja o garante da adequação das ofertas às necessidades evidenciadas pelo aluno e pela família. As características tão distintas e diferenciadas que estas crianças apresentam, equaciona-se a utilização de um modelo de avaliação baseado em modelos ecológicos. Estes modelos são estruturados em torno de actividades da vida real e que garantem o envolvimento progressivo em ambientes diversificados. Este modelo permite uma avaliação em contexto natural em oposição aos modelos de desenvolvimento, que tentam adaptar actividades ao nível das idades de desenvolvimento de criança/jovem.
O sucesso e a eficácia deste tipo de avaliação implica o desenvolvimento de um trabalho de equipa em que garanta a colaboração dos profissionais de educação e de todos os técnicos envolvidos no processo da criança/jovem, mas é fundamental a participação da família, de modo a garantir a estas crianças/jovens oportunidades reais de interagir com os objectos e pessoas mais significativas nos diversos contextos naturais em que a criança/jovem está inserida, desenvolvendo aprendizagens a partir destas interacções.




Autores: Paula Rocha, Regina Coelho e Sandra Andrade


Bibliografia
- Amaral, I.; Saramago, A. R.; Gonçalves, A.; Nunes, C. e Duarte, F. (2004). Avaliação e Intervenção em Multideficiência. Centro de Recursos para a Multideficiência. Lisboa: Ministério de Educação. Direcção Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular.
- Dijk, J. V. e Nelson, C. (2001). Utilização de Estratégias centradas na criança para compreender as crianças que apresentam multideficiência grave: a abordagem de Van Dijk à avaliação (tradução e adaptação de Clarisse Nunes).
- Nunes, C. (2004). Baseado em Amaral. Modelos de Avaliação. Documento não publicado.
- Nunes, C. (2008). Alunos com multideficiência e com surdocegueira – Organização da resposta educativa. Lisboa: Ministério da Educação. Departamento da Educação Básica.