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Introdução _

O desenvolvimento de conceitos, faz-se desde que nascemos e durante toda a nossa vida, só através das experiências, das vivências, do que vê-mos e sentimos podemos desenvolver os nossos próprios conceitos. Cada ser humano pensa de forma única, vê o mundo à sua volta de forma diferente de todos os outros, tem experiências variadas e únicas, durante toda a sua vida.
Cada pessoa forma os seus próprios conceitos sobre o mundo, a vida em comunidade, a família, os amigos, os objectos, as experiências que teve, os conceitos são tudo o que nos rodeia, coisas palpáveis e não palpáveis.

O que são conceitos _

Segundo o Projecto Sparkle (2006) os conceitos são representações mentais de imagens ou ideias de objectos, de coisas palpáveis concretas (cão, cadeira), e de ideias não palpáveis (sentimentos, cores). Cada pessoa conforme a sua vivencia e as experiências que teve em determinadas situações da sua vida, cria os seus próprios conceitos.

Para as autoras Miles & McLetchie (2004) “Os conceitos são as ideias que dão significado ao nosso mundo” (p.1).
Van DijK considera que tudo o que sabemos, passa para as nossas acções, quando queremos definir alguma acção ou objecto, nós vamos buscar outros conceitos que conhecemos para nos ajudar a definir. Compreendemos o mundo porque agimos as nossas experiências dão-nos conceitos que são únicos para nós. (Durkel, 2000, p.10)
Na opinião de Durkel (2000) quase todas as palavras estão associadas a um conceito, em cima, em baixo, cão, árvore, casa, livro, etc.

Como aprendemos conceitos _

Segundo Miles & McLetchie (2004) na infância os conceitos desenvolvem-se em espiral, sendo importante que a criança tenha um ambiente carinhoso que a envolva. No colo da sua mãe, o bebé aprende que pode influenciar outro ser humano, pode chorar e ser alimentado, receber consolo, de forma gradual conforme a criança vai crescendo as suas experiências são mais numerosas, compreende o seu corpo e o da sua mãe, aprende que existem objectos e seres humanos, aprende sobre o que pode ver e ouvir.

Aprende que tem uma família, uma casa, uma vizinha e uma cidade. Aprende que as pessoas comunicam através da linguagem e vê-se a si mesma como parte da comunidade que fala essa linguagem. Por exemplo: quando uma criança compreende que bate as palmas e o seu pai também bate as palmas, a criança começa a entender a noção de “causa, efeito”, depois de compreender este conceito é mais fácil entender os outros, para a próxima talvez compreenda que se apertar o boneco este faz barulho… (Miles & McLetchie, 2004, pp.1-2)

Segundo Durkel (2000) só através da comunicação conseguimos desenvolver conceitos, pois a base das nossas aprendizagens é a comunicação. Quando falamos de comunicação não nos referimos só à linguagem oral, mas a qualquer tipo de linguagem.

No processo comunicativo temos de ter em atenção três aspectos:
  • a forma - como é que a comunicação acontece! A linguagem oral é uma forma de comunicação, a língua gestual é outra, mas existem muitas formas de comunicação, como sejam: chorar, usar objectos, fotografias ou imagens, até adormecer são tudo formas de comunicação.
  • a função ou razão que nos leva a comunicar - qual é o objectivo da nossa comunicação o que pretendemos, é para partilharmos informação, para chamarmos a atenção, para pedir alguma coisa, tudo isto são razões que nos levam a comunicar, etc.
  • o conteúdo da mensagem - qual o significado do que pretendemos dizer (conceito).

O ser humano desenvolve conceitos através das suas experiências, pelo que o mesmo conceito é diferente para cada um de nós, uma vez adquirido um conceito prestamos atenção à sua forma, embora o conceito seja o mesmo para todos, cada um o vê de sua maneira. Tudo a que nos referimos no nosso dia-a-dia são conceitos e existem muitas palavras com mais do que um significado (Durkel, 2000, p.9).

Tipos de Conceitos

Segundo Miles & Mcletchie (2004) existem tipos, categorias, de conceitos diversos:
  • Como o mundo funciona (rotinas, para que serve cada coisa, causa e efeito)
  • Como o meio físico está organizado e como nos podemos orientar nele (orientação e mobilidade)
  • De onde surgem as coisas (o mundo natural e os seus ciclos)
  • Qual as sequências das coisas (tempo, ordem das actividades)

De igual importância e muitas vezes descurado é o desenvolvimento positivo de auto-conceitos e de conceitos sociais. Todas as crianças que conseguem desenvolver auto-conceitos positivos, sejam ou não surdocegas, usufruem de uma vida melhor em adultos. Vêem-se como comunicadores competentes, seja qual for o tipo de comunicação que utilizam verbal ou não verbal. Vêem-se como parte de um grupo que as aceita e compreende.

“Existem conceitos muito importantes que devem ser trabalhados, para que a criança consiga expressar-se que são:
  • Eu consigo comunicar as minhas necessidades
  • Eu tenho ideias únicas sobre o mundo
  • Comunicar é sobre ouvir e ser ouvido (tomar a vez), partilhar interesses
  • Eu tenho sentimentos e consigo partilha-los
  • Pertenço a uma família ou grupo
  • Pertenço a uma comunidade
  • Sei interagir com as pessoas da comunidade de forma agradável
  • Posso contribuir para a minha comunidade
  • O Mundo é interessante, posso explorá-lo sozinho ou com os outros

Estes conceitos não podem ser descritos nem ensinados, tem de se proporcionar experiências para que a criança os possa viver.” (Miles & Mcletchie, 2004, p.3).

Para os participantes no Projecto Sparkle (2006) os conceitos dividem-se em três grupos:
  • Conceitos concretos – Relacionados com objectos palpáveis, carro, cadeira, cão…
  • Conceitos semiconcretos – Relacionados com uma acção, cor, posição ou algo que pode ser demonstrado, mas não são palpáveis, algo que não pode ser agarrado, saltar, correr, cores, posições atrás, à frente…
  • Conceitos abstractos – Incluem o que não se pode medir, as emoções: alegre, triste; os sentimentos amor, paixão, ódio…

Impacto da surdocegueira no desenvolvimento de conceitos _

Segundo Monte & Santos (2006) as crianças com surdocegueira precisam ser encorajadas a desenvolver um estilo de aprendizagem próprio para compensar suas dificuldades visuais e auditivas e para estabelecer e manter relações interpessoais. Portanto, as trocas interactivas destas crianças precisam ser orientadas para o desenvolvimento dos sentidos remanescentes, entre eles, cutâneo, cinestésico (corporal-articulações e músculos; e, sensorial - visceral), gustativo e olfactivo, como forma de acesso à informação na ausência dos sentidos da visão e audição.(p.14)

De acordo com o “Projecto da Geórgia para surdocegos” os conceitos mais difíceis destas crianças compreenderem são:
  • As propriedades dos objectos; grande/pequeno; redondo/quadrado.
  • As noções espaciais; dentro/fora; perto/longe.
  • As noções temporais; noite/dia, as sequências do dia/tarde.
  • A causa efeito; empurrar uma bola faz com que esta role.
  • A permanência do objecto; a bola que rolou está fora de alcance mas continua ali.

Outra das grandes dificuldades destas crianças são o desenvolvimento de conceitos relacionados com as actividades da vida diária como sejam o: alimentarem-se, vestirem-se e a higiene diária. Estas constituem actividades que podem ser difíceis para elas, que têm de ser ensinadas, uma vez que estas crianças não têm possibilidade (na maioria dos casos) de as aprender por imitação.

O Projecto Sparkle (2006) considera que existem seis áreas do desenvolvimento de conceitos que são afectadas quando a criança apresenta surdocegueira, as quais passamos a referir:
  1. A existência do objecto – tem dificuldade em compreender a existência de um objecto, uma vez que não conseguem vê-lo nem ouvi-lo com clareza.
  2. A permanência do objecto –não conseguem observar o objecto e compreender que o objecto se mantêm independentemente de o sentirem pelo tacto ou não.
  3. As diferenças entre os objectos –só compreendem que um objecto é diferente do outro se o sentirem (tacto).
  4. Os objectos têm nomes –precisam de usar o tacto para terem um suporte da linguagem oral ou da língua gestual.
  5. Os objectos tem características - têm muita dificuldade em compreender as características dos objectos, a maneira como sentem os objectos não é igual à de uma criança que vê, as crianças com baixa visão ou cegas, sentem os objectos por partes.
  6. Os objectos tem funções ou usos – não têm a capacidade de observar como os objectos são utilizados, ou ouvir o som associado à função do objecto.

Estratégias para desenvolver conceitos _

Quando nos relacionamos com uma criança surdacega, é importante distinguir “conceito” e “competências”. Não é por a criança ter determinadas “competências” que a criança tem noção dos conceitos relacionados. O exemplo dado por Carolyn Mónaco (citado por Miles & McLetchie, 2004, p.2), consultora educacional no campo da surdocegueira, é de uma criança surdocega que pode ter capacidade para pôr roupa a lavar: pôr na máquina, transferir para a máquina de secar e dobrar, sem ter que entender os conceitos de limpo e sujo que são o centro da tarefa.

Baseado ainda na informação veiculada por Miles e Mcletchie (2004, p.6) sugerimos a realização de algumas actividades e rotinas que podem facilitar o desenvolvimento de conceitos por parte destas crianças, as quais passamos a mencionar:
  • Incluir a criança em todas as actividades, convidá-la a acompanhar-nos nas nossas rotinas, a ir ao frigorífico, a vestir o casaco, a deixá-la sentir como nos dobramos para apanhar algo que caiu, etc.
  • Utilizar os interesses da criança, escolher as actividades que à partida já sabemos que vão captar a sua atenção, por exemplo: se a criança gosta de texturas, encontrar uma variedade de brinquedos com textura, para que possa brincar com eles, partilhe as suas brincadeiras, brincando juntos com os brinquedos.
  • Usar as rotinas da família e da escola como oportunidades de aprendizagem, desde preparar uma sanduíche, ao abrir de uma porta, carregar coisas para pôr a mesa, etc.
  • Utilizar, imagens ou desenhos em crianças com alguma visão. Por exemplo aproveitar a ida ao Jardim Zoológico com a criança e tirar fotografias, para depois podermos falar sobre o que vimos, utilizar imagens para contarmos uma história ou recordar momentos.
  • Utilizar as brincadeiras, encorajar a criança a brincar para que possa explorar brinquedos e se expresse através deles, utilizar os brinquedos para desenvolver conceitos.

O Projecto Sparkle (2004, p.1) também menciona algumas sugestões com o mesmo objectivo, como por exemplo:
  • Usar actividades com significado para a criança.
  • Fazer actividades que a criança aprecie.
  • Juntar linguagem a todas as experiências.
  • Falar numa linguagem conhecida da criança. Usar um sistema de comunicação apropriado às suas capacidades.
  • Eliminar variáveis que podem causar confusão à criança.
  • Generalizar os conceitos a uma variedade de situações.

Conclusão

As crianças com multideficiência e surdocegueira não aprendem como as outras crianças, necessitam de outro tipo de estratégias para desenvolverem conceitos.
Os profissionais que trabalham com estas crianças devem informar-se sobre as suas limitações, só conhecendo bem a criança se poderá fazer um trabalho rico e satisfatório. É muito difícil sabermos ao certo quais os conceitos que estas crianças já têm, muitas comunicam muito pouco, as suas vivências são muito limitadas.
É necessário estabelecer-se um relacionamento afectivo com a criança, tentar conhece-la perguntando aos pais e a outros profissionais que trabalhem com a ela, como esta se expressa como comunica, quais os seus interesses, que tipo de experiências já viveu.

Autor: Sónia Isabel Ramos Joaquim


Bibliografia

- Durkel, J., What a Concept! , Texas School for the Blinde and Visually Impaire, newsletter, volume 5, nº2, in http://www.ysbvi.edu.
- Gómez, P., F; Marcos, M; Martín, P; Nuñez, A. y Vallés Arándiga, (2000), Aspectos evolutivos y educativos de la deficiencia visual, de la colección Manuales editado por la ONCE, Este tema está extraído del capítulo VIII titulado "La sordoceguera".
- Concept Development, Georgia Deafblind Project, consultado em Maio de 2009, em http://education.gsu.edu/georgiadeafblindproj/concept.html
- Ladeira, F. & Amaral, I., (1999) A Educação de Alunos com Multideficiência nas Escolas de Ensino Regular, Ministério da Educação.
- Miles Barbara, McLetchie Barbara, (2004),Children Who Are Deaf-Blind. http://www.dblink.org
- Nascimento, F., Maia, S. (2006),Saberes e práticas da inclusão, Educação Infantil, Brasília, Secretaria da Educação.
- Projecto Sparkle (2006), Concept Development SKI-HI Institute at Utah State University, consultado em Junho de 2009 em http://www.sparkle.usu.edu/Topics/concept_development/