Sistema de calendário


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Introdução

Na educação dos alunos com multideficiência é importante considerar três etapas, as quais se encontram representadas na imagem que se segue.

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Em relação à avaliação é importante conhecer os pressupostos sendo que os mesmos dependem das diversas abordagens (ver página sobre avaliação).
No que diz respeito à planificação é importante ter em atenção as considerações gerais, a mesma deve centrar-se em actividades naturais, organizar o currículo e considerar a possibilidade de usar abordagens alternativas (ver página que fala da planificação).

Quanto à intervenção é importante ter em consideração o papel da comunicação na organização das aprendizagens, a criação de ambientes ricos em comunicação e o papel das rotinas na organização das aprendizagens (ver página que fala da Intervenção).
No âmbito da organização das rotinas de aprendizagem o "Sistema de Calendário" assume um papel importante.

A forma como os profissionais organizam o sistema de calendário depende do conhecimento que têm dos alunos que os irão utilizar, das suas características e factores que as determinam, das suas necessidades, dos pressupostos básicos para a sua educação e da organização do ambiente de aprendizagem. No mapa de conceitos que a seguir se apresenta procuramos ilustrar a relação entre todos estes aspectos.

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DESENVOLVIMENTO DO TEMA
A forma como os profissionais organizam os Ambientes de Aprendizagem destes alunos é um aspecto muito importante a considerar na sua educação, sendo indispensável ter em atenção os quatro aspectos referidos na análise do tema ambientes ricos em comunicação, isto é: as actividades; o espaço; as pessoas e o tempo.

Em relação ao tempo é fundamental criar rotinas que contribuam para que os alunos compreendam as noções de tempo. Neste sentido, torna-se necessário compreender de que forma os alunos interagem com os outros e o tempo de que necessitam para o fazer, bem como o modo como os alunos vão compreendendo as questões relativas ao tempo. Quanto a este último aspecto pode ser útil usar um sistema de calendário. Vejamos então o que é um sistema de calendário, como pode ser organizado, que tipo de símbolos se pode usar, para que servem e que tipo de sistemas de calendário existem.

Sistema de Calendário - o que é
Amaral et al, (2004, p.185) referem que um sistema de calendário é constituído por um sistema de símbolos organizados sequencialmente, que representam actividades a realizar e auxiliam a criança a compreender o que vai fazer. Essas actividades repetem-se segundo determinada ordem, respeitando uma sequência pré-estabelecida e um horário definido.
Pode ter vários formatos e ser utilizado nos diversos ambientes frequentados pelos alunos.


Como organizar um sistema de calendário:
Os sistemas de calendário devem ser organizados de acordo com as características individuais dos alunos e basearem-se nas rotinas diárias existentes. A sua elaboração exige planeamento e avaliação sistemática, sendo necessário tomar algumas decisões fase à organização, tais como:
  • que actividades vamos incluir no calendário e qual a sua estruturação,
  • que o tipo de calendário vamos usar,
  • que símbolos vamos usar para representar as actividades,
  • quais as capacidades, interesses e motivações do aluno,
  • quais os procedimentos a desencadear na introdução de um calendário.


A nível da escolha das actividades, devemos optar pelas que fazem parte da rotina do aluno e as que são mais significativas para ele.
Cada actividade representada pode dispor de um determinado espaço próprio, o que corresponde a um pedaço de tempo.
Os espaços que representam cada actividade devem ser suficientemente claros e distintos para se perceberem as diferenças entre eles.
O calendário pode ser organizado com diversos materiais, dependendo basicamente das capacidades do seu utilizador.
Deverá ser colocado num local de fácil acesso.
Permanecer no local escolhido e ser funcional a sua utilização.
Deve contemplar uma forma de representar o passado.
O utilizador deve poder compreender toda a extensão do calendário.
O calendário poderá ser elaborado com diversos materiais, dependendo da forma de comunicação do aluno.
Deverá ser colocado num local de fácil acesso, permanecendo no local escolhido. Deve permitir o fácil manuseamento e compreensão da sua funcionalidade.


Tipos de símbolos a usar:
Os símbolos podem ser objectos, imagens ou palavras. A sua escolha depende das capacidades do aluno que o vai utilizar. Deste modo, na concepção dos calendários e tendo em conta as características individuais dos utilizadores (cognitivas, sensoriais e motoras), poder-se-á recorrer a pistas de objectos de referência, parte de objectos, fotografias, desenhos e dever-se-á sempre que possível relacioná-los aos símbolos gráficos e à palavra escrita, de modo a serem entendidas por um maior número de intervenientes.


Para que serve o sistema de calendário
Os calendários ajudam a estruturar o quotidiano através da previsão e da antecipação das actividades e das rotinas, permitindo que a criança saiba o que aconteceu e preveja o que irá acontecer. Mas, vão para além da estruturação, servindo para comunicar, fomentar a auto-estima e as interacções sociais e contribuir para o desenvolvimento cognitivo, sendo a comunicação o eixo transversal e fundamental e desenvolvida em todos os contextos. O dia escolar deve-lhes oferecer uma estrutura consistente (Ferreira, Ponte e Azevedo, 1999). Amaral et al. (2004) refere ainda que permite:


  • organizar de forma sequencializada a informação;
  • aumentar a previsibilidade das situações,
  • adequar, cognitivamente, comportamentos face a situações previstas;
  • dar, através da antecipação, apoio emocional ao aluno, permitindo-lhe envolver-se com confiança e sentido de posse,
  • desenvolver competências comunicativas,
  • adquirir conceitos temporais básicos,
  • enriquecer o vocabulário da criança/jovem,
  • visualizar a estruturação do tempo
  • atribuir sentido às rotinas biológicas.

Seguidamente apresentamos um acróstico de calendário que se encontra em Amaral et al, (2004)

Comunicar, dialogando sobre cada actividade,
Antecipar o que vai acontecer,
Ler quando se associa a palavra à escrita,
Experimentar ao ter acesso a novas actividades/situações,
Noticiar quando se dá a informação sobre acontecimentos não previstos,
Descobrir o que vai acontecer de novo,
Aprender novo vocabulário,
Repetir situações que ocorrem diariamente,
Interagir com pessoas e ambientes,
Organizar a informação sobre os acontecimentos


Vantagens do uso de sistemas de calendário:
A compreensão do tempo e dos horários contribui para que os alunos:
  • se sintam seguros no ambiente o que lhes oferece maior estabilidade e segurança emocional;
  • consigam antecipar o que vai acontecer, compreendendo o que se passa à sua volta;
  • estruturar-se para que com, e em segurança, tenham condições para receber a informação, interpretá-la e expressar-se.
Para melhor compreender e antecipar os vários momentos de actividades e situações do dia-a-dia os alunos deverão ter horários e calendários que os auxiliem, principalmente na transição de uns momentos para os outros.
Desta forma os
alunos podem envolver-se com maior intencionalidade nas actividades em que participam, uma vez que têm possibilidade de desenvolver competências de antecipação relacionadas com as sequências, tanto das situações e actividades, como das várias etapas necessárias para as cumprir e o tempo exigido.
O sistema de calendário pode contribuir, de forma determinante, para que os alunos compreendam as rotinas (inerentes tanto às situações como às actividades) e se envolvam nas mesmas com segurança.

Tipos de sistemas de calendário
Segundo Blaha & Moss (1996) e Amaral et al. (2004) existem cinco tipos de calendários possíveis de realizar. Sendo o seu grau de dificuldade diferente, indo do mais simples (antecipação) ao mais complexo (agenda). Contudo, e ainda segundo os mesmos autores os calendários mais utilizados são os mais básicos, cuja complexidade é menor. Os mais complexos têm um número reduzido de utilizadores.
Seguidamente passamos a explicar cada um destes cinco tipos de calendários que se podem usar, os quais estão representados na imagem que se segue.



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(Tipos de calendário in: Amaral et al. 2004)

Calendário de antecipação

Tal como o seu nome indica, este calendário permite que o aluno consiga prever o que vai acontecer no momento seguinte.
Em termos de organização devem ser escolhidas as actividades que fazem parte da rotina do aluno e que sejam mais significativas para ele. Outros aspectos a considerar:

  • A estrutura do calendário deverá ser adaptada a uma actividade e de acordo com o objectivo pretendido.
  • A sua construção deverá ter em conta o espaço e o tempo onde se vai desenvolver.
  • Após a conclusão da actividade, o calendário deverá ter uma estrutura que permita à criança compreender o conceito de passado, através do fim da tarefa (ex. tapar a caixa, tabuleiro, etc.).

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Exemplo de um calendário de antecipação - duas caixas, uma indica o início da actividade e a outra o seu fim.

Este tipo de sistema de calendário destina-se aos alunos que:

  • compreendem que um objecto pode servir para representar actividades, pessoas, locais ou acções:
  • apresentam um nível elementar de representação;
  • não têm nenhuma forma organizada de pedir ou rejeitar as actividades;
  • precisam de muito apoio para prestar atenção a acontecimentos externos a si próprias, mas aceitam, mesmo que por breves momentos, a interacção com os outros.

Calendário diário
Este calendário embora também antecipe as actividades que o aluno vai realizar, porém, fá-lo numa duração de tempo diferente, ou seja, a sua organização é para um período diário. Assim, as actividades obedecem a uma sequência desenvolvida ao longo de um dia.
Implica que o aluno saiba quais as actividades que vai desenvolver ao longo do dia e conversar sobre elas, bem como a forma como se vão organizar;
Neste tipo de calendários, os símbolos que representam as actividades são organizados sequencialmente, permitindo assim a compreensão das actividades.

CIMG1340.JPGExemplo de um calendário diário o qual utiliza símbolos pictográficos

Possíveis utilizadores, alunos que já conseguem:
  • Compreender a representação temporal do acabar e do começar uma nova actividade;
  • Participar nas rotinas incluídas no calendário;
  • Reagir ao ambiente onde se encontram pelo menos durante um minuto;
  • Lembrar das actividades e dos objectos usados habituais em várias rotinas diárias;
  • Estabelecer a relação entre objectos ou as imagens e o que eles representam;
  • Antecipar alguns passos de uma rotina através da apresentação de uma pista de informação (noção de futuro).

Calendário semanal


Este calendário é mais expansivo que os anteriores e permite ao aluno saber o que vai acontecer ao longo de uma semana. O calendário semanal deverá ser construído sempre que possível em colaboração com o aluno. Tal como nos calendários anteriores é essencial escolher actividades que façam parte da rotina diária e que sejam significativas para o aluno. Os símbolos que representam as actividades são organizados sequencialmente pelos diversos dias da semana, como se ilustra na imagem seguinte.
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Este tipo de calendário permite:

  • Conversar sobre acontecimentos que ocorreram ontem e os que irão ocorrer amanhã;
  • Introduzir novos tópicos ou novo vocabulário.

Calendário mensal

Permite ao aluno saber as actividades que se irão desenvolver ao longo de um mês.



Agenda

Permite que ao aluno conhecer as actividades que se irão desenvolver ao longo de um período, trimestre ou semestre.


Como adicionar mais informação ao calendário

Os calendários podem também ser utilizados para o desenvolvimento das capacidades comunicativas e para a aprendizagem gradual de conceitos temporais cada vez mais complexos, uma vez que representam de forma clara a localização de actividades no tempo, facilitando em simultâneo a compreensão da noção de princípio e fim das actividades. Pode ainda ser usado para dar mais informação ao alunos, para isso é importante:


  • Aumentar a informação sobre as rotinas das actividades;
  • Organizar os símbolos pelos passos da actividade;
  • Informar de quem vai realizar a actividade e o local;
  • Elaborar dicionários com símbolos que a criança conhece
  • Despertar a curiosidade através do calendário (mostrando uma actividade nova que se realize num ambiente conhecido);
  • Conversar com a criança quando recusa uma actividade;
  • Beneficiar do sistema de calendário para fazer perguntas, pedidos, comentários, etc., sobre as actividades desenvolvidas;
  • Introduzir novos tópicos nas actividades desenvolvidas no sistema de calendário;
  • Alargar os conhecimentos da criança sobre o mundo que a rodeia.
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(Esquema de como se pode adicionar informação num sistema de calendário - in Amaral et al. 2004, p.200)

EXEMPLO DE PRÁTICAS - utilização de um calendário diário

Características da aluna: a aluna frequenta uma unidade de apoio à educação de alunos com multideficiência do 1º ciclo, não está sujeita a medicação e mantém-se alerta todo o tempo em que está na escola, tem as terapias à tarde. A aluna, apesar das limitações e dificuldades que evidencia, começa a dar indicadores que permitem perceber que, provavelmente, em breve será possível passar a utilizar um calendário semanal.
Formas de deslocação da aluna: a aluna desloca-se de cadeira de rodas, a pé, de mão dada com os colegas ou adultos e com o andarilho.

Rotina da aluna: a aluna chega à escola às 8.00h. As quatro primeiras actividades que realiza das 8.00h às 10.30h, fazem, entre outras partes da rotina diária:

  • consultar o horário e compor o calendário;
  • fazer a data;
  • fazer o mapa do tempo;
  • ir para a sala (ir para a sala implica acompanhar os seus colegas de turma no primeiro tempo lectivo da manhã dentro da sala de aula e no recreio, durante o lanche e as brincadeiras).
  • Depois do recreio a aluna volta para a UAAM e escolhe o que quer fazer. É também durante este segundo tempo lectivo que a aluna realiza alguns recados deslocando-se de andarilho (tirar fotocópias, comprar senhas de almoço, ir buscar material de desgaste, etc.).
  • Depois do almoço a aluna realiza actividades planificadas de acordo com as intervenções que tem, nomeadamente, ao nível das terapias e da psicologia.

Os símbolos que representam algumas das actividades (almoço, recreio, sala de aula, etc.) repetem-se três vezes e cada um tem, no canto inferior direito, um pequeno símbolo que representa a forma como a aluna pode deslocar-se, pelo que a mesma, ao colocar o símbolo no calendário fá-lo de acordo com a forma como pretende deslocar-se.

Utilização do calendário: A aluna antecipa as actividades que irá realizar durante o dia, colocando as imagens (a preto e branco) que as representam no calendário. Conforme vai realizando as actividades vai substituindo cada um dos símbolos a preto e branco por símbolos coloridos. Assim, no início do dia o calendário só tem imagens a preto e branco e no final as actividades que se realizaram estão coloridas.



1º.jpg2º.jpg3º.jpg Figura nº1 - Imagens de um único Calendário Diário em três momentos do dia
1º Inicio das actividades; 2º Actividades realizadas até ao almoço; 3ºActividades realizadas até ao final do dia

Neste caso a utilização do calendário contribui para dar um maior sentido aos acontecimentos, situações e actividades em que a criança/jovem está envolvida.


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Figura nº2 - Elaboração do Mapa do Tempo - 3ª actividade da rotina diária, planificada no calendário




Autores: Luísa Leitão, Isabel Bucho, Jacinta Rente, Madalena Casado, Mª Isabel Camalhão e Rosa Soares

Bibliografia
  • Amaral, I., Saramago, A., Gonçalves, A., Nunes, C. & Duarte, F. (2004).Avaliação e Intervenção em Multideficiência. Ministério da Educação. Direcção Geral da Inovação e Desenvolvimento Curricular.
  • Blaha, R., Hackney, H (2001). Calendarios Para Estudiantes com Múltiples Discapacidades Incluído Sordoceguera. ROTAGRAF, Córdoba, Argentina.
  • Cadernos de Educação de Infância nº 80, Abril/07 (p.25)
  • Ferreira, M., Ponte, M., Azevedo, L. (1999). Inovação Curricular na Implementação de Meios Alternativos de Comunicaçao em Crianças com Deficiência Neuromotora Grave. Secretariado Nacional para a Reabilitação e Integração das Pessoas com Deficiência.
  • Nunes C. (2001). Aprendizagem activa na criança multideficiente com deficiência visual- um guia para educadores. Lisboa. Ministério da Educação.
  • Vieira, F. e Pereira, M. (2003). Se houvera quem me ensinara. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian
  • Coll, C., Palacios, J.& A. Marchasi (1995) Desenvolvimento Psicológico e Educação, Necessidades Educativas Especiais e Aprendizagem Escolar. Porto Alegre: Editora Artmed.

Endereços electrónicos:
http://pt.wikipédia.org
www.ace-centre.org.uk
www.widgit.com/products/wws2000/index.htm
http://www.ahimsa.org.br/centro_de_recursos/projeto_horizonte/DEIXE_ME_CONSULTAR_MEU_CALENDARIO.pdf
http://edif.blogs.sapo.pt/11779.html