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Introdução

Algumas crianças/jovens que não se expressam através de formas verbais, como é o caso das que apresentam multideficiência. Essas crianças/jovens necessitam de recorrer a outras formas de comunicação mais básicas, que correspondam ao seu nível de compreensão, como é o caso do uso de objectos de referência. Por exemplo podemos observar na imagem 1 uma criança com surdocegueira a tocar o objecto que representa o momento de reunião de grupo. Nesta situação este objecto representa uma actividade específica e indica à criança o que ela vai fazer a seguir.
MichaelSched1.jpg(Imagem 1)Analisemos de uma forma um pouco mais detalhada o que são objectos de referência, quais as suas potencialidades, os potenciais utilizadores e como podem ser usados.


O que são objectos de referência

Os objectos de referência são ”símbolos concretos a três dimensões que representam diversas entidades” (Amaral et al., 2004, p.146). Devem ser criados especificamente para cada criança/jovem, pois como indica Bloom (1990) os objectos de referência assumem significados especiais de acordo com as experiências que cada criança/jovem tem. Como exigem menos capacidades cognitivas do que o uso de formas de comunicação mais complexas são mais facilmente apreendidos. Contudo, algumas mensagens / ideias são difíceis de representar como sejam os sentimentos.
Os objectos de referência podem ser constituídos por:

* Objectos reais
São objectos diários utilizados que podem representar eventos, pessoas, actividades ou acontecimentos.
As partes de objectos reais também podem ser usadas como objectos de referência para representar actividades, pessoas, acções ou eventos. Por exemplo: uma tampa de iogurte” pode representar a acção de comer; uma parte do cinto de segurança do carro pode representar o ir andar de carro, um “pedaço de lençol” para representar a hora de dormir, etc.
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Significado - Comer iogurte
* Objectos associados
Existe ainda a possibilidade de se usar objectos que embora não tenham uma relação directa com as acções realizadas pela criança/jovem podem ser usados para as representar. Os objectos podem ser idênticos aos utilizados na actividade ou não, quanto mais distantes do real, mais difícil se torna compreender o que representa. Por exemplo: uma peça de um talher pode representar a acção de comer; qualquer copo pode representar a acção de beber e qualquer boné pode representar uma ida à rua.

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colher.jpgSignificado - ComerSignificado - Ir à rua



Potencialidades

Os objectos de referência podem ser usados como meio de comunicação, quer em termos de comunicação receptiva, quer expressiva. Em termos de comunicação receptiva podem ser usados para antecipar situações ou eventos que vão acontecer, ou para referenciar pessoas com quem se vai interagir. A nível da comunicação expressiva podem ajudar a criança/jovem a manifestar preferências, gostos, sentimentos, necessidades, a fazer escolhas, etc.
Em termos gerais e na opinião de Amaral et al. (2004, p.150) os objectos de referência ajudam a criança/jovem a:

  • desenvolver as capacidades comunicativas;
  • fazer a transição de formas de comunicação não simbólicas para simbólicas;
  • desenvolver conceitos sobre o ambiente que a rodeia, o que permite aumentar a compreensão sobre o que se passa à sua volta;
  • diminuir os sentimentos de ansiedade;
  • perceber o que vai fazer a seguir.

Os objectos de referência auxiliam ainda o desenvolvimento de uma certa consciência e compreensão de todo o ambiente que envolve a criança.



Potenciais utilizadores
Os objectos de referência podem ser utilizados por pessoas de qualquer idade como forma de comunicação, incluindo as pessoas com multideficiência e com. surdocegueira. Como se descreve no esquema abaixo as crianças/jovens com surdocegueira congénita apresentam acentuadas limitações nos domínios sensoriais visão e audição. A combinação das limitações visuais e auditivas dificulta o seu desenvolvimento, a capacidade de exploração dos ambientes e as interacções com os seus pares nas actividades do dia a dia.


esquema_SC.jpg(Nunes, 2008, p.14)

Os objectos de referência também podem ser utilizados por pessoas que têm problemas de memória a curto e a longo prazo, como é o caso das pessoas com Alzheimer. De salientar ainda que as crianças/jovens que apresentam deficiência visual podem beneficiar do uso dos objectos de referência, assim como outras crianças portadoras de outras deficiências, como seja a intelectual.


Como utilizar os objectos de referência

É essencial começar por usar objectos que fazem parte do quotidiano das crianças/jovens, conversar com elas sobre a sua utilidade e função e dar-lhes tempo para que explore os objectos consoante as suas capacidades.
No caso das crianças/jovens com multideficiência e com surdocegueira congénita deve ter-se ainda em consideração os seguintes aspectos:


  • os objectos de referência devem ser introduzidos nas situações quotidianas para facilitar o processo de comunicação;
  • é essencial seleccionar objectos que sejam significativos e atractivos para a criança/jovem e que possam ser por ela facilmente reconhecidos;
  • depois de ter percebido o significado do objecto de referência escolhido pode-se então introduzir outros objectos.
Como dissemos é vantajoso iniciar o uso dos objectos de referência nas actividades mais significativas e interessantes para a criança/jovem. Deve fazer-se corresponder um objecto a um significado para a ajudar a perceber que um determinado objecto serve para representar um aspecto específico, seja uma pessoa, uma acção, uma actividade ou um evento.
O tipo de objecto de referência a usar depende das capacidades da criança/jovem, sendo que quando esta apresenta limitações cognitivas mais acentuadas deve-se começar-se pelos objectos reais por ela usados
Sempre que seja possível, deve aumentar-se progressivamente a quantidade de objectos de referência a usar com a criança/jovem para aumentar as suas possibilidades de comunicação.




Exemplo do uso de objectos de referência em jovens com surdocegueira

Num pequeno estudo efectuado junto de quatro jovens com idades compreendidas entre os 12 e os 18 anos pudemos perceber que os objectos de referência são utilizados no seu dia a dia para representar diversas situações. Constatámos ainda que estes são específicos para cada um deles, dependendo a sua escolha das suas capacidades cognitivas, motoras e sensoriais. Neste estudo, foi possível concluir que:


  • O uso de objectos de referência deve estar de acordo com as capacidades, desejos e interesses da criança/jovem e basear-se nas rotinas diárias.
  • A selecção dos objectos de referência é diferente para cada aluno.A escolha dos objectos de referência a usar deve basear-se sempre nas necessidades e características específicas do seu utilizador.
  • Devem ser usados de uma forma consistente e sistemática para facilitar a compreensão do seu significado por parte dos utilizadores. É importante existir um trabalho de colaboração entre todos os que intervêm com estes jovens.
  • A sua utilização permite que estes jovens tenham oportunidades para interagir com objectos e pessoas significativas em contextos naturais, desenvolvendo as competências comunicativas e melhorando as suas aprendizagens a partir dessas interacções.


Autores: Maria José Machado
Isabel Bernardo

Onde procurar mais informação sobre objectos de referência

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http://www.lindenlodge.wandsworth.sch.uk/schooltour/objref/objef.html
http://www.lookupinfo.org/index.php?id=objects_of_reference




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • Amaral, I., Gonçalves, A., Nunes. C., Duarte, F. & Saramago, A. (2004). Avaliação e Intervenção em Multideficiência. Centro de Recursos para a Multideficiência. Lisboa: Ministério da Educação. Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular. Direcção de Serviços de Educação Especial e do Apoio Sócio Educativo..
  • Bloom, Y, (1990). Objects Symbols: A communication option. The Royal New South Wales Institute for Deaf and Blind Children. Australia: Monograph Series- Number 1, Noth Rocks Press,
  • Nunes, C. (2008). Alunos com multideficiência e com surdocegueira congénita. Organização da resposta educativa. Lisboa: Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular. Direcção de Serviços da Educação Especial e do Apoio Sócio – Educativo.